Um Olhar sobre o Desemprego Prolongado

“Nada cerceia mais a liberdade do que a falta de dinheiro.” (John Keneth Kalbralth, 1908 – 2006)

Intrudução

Queiramos ou não, todos construímos um mundo cujo sistema de repartição da riqueza é desigual e, no qual, aqueles que não tiverem acesso a um trabalho remunerado, certamente terão sua “liberdade cerceada.”

Mais do que isso, os desempregados por longos períodos deixam de ser visíveis para a sociedade “produtiva”. Mesmo os garis, subempregados não são visíveis pelos transeuntes. Têm pouco ou quase nenhum poder de compra. Apenas se tornam visíveis – e de forma negativa – quando fazem greve. Ai, todos se lembram deles…de forma negativa.

Eu não digo, como muitos, que a sociedade está sofrendo um período de transição. Eu digo que a sociedade está no seu ponto de inflexão. Todos já perceberam que o sistema econômico já não responde mais às necessidades sociais. Assim, o desemprego veio para ficar e os Estados insistem em manter vivo o moribundo sistema. Não só o Estado, mas a sociedade em geral, cega que está.

Efeitos do Desemprego Prolongado

Imagine que você jovem ou não no trabalho que faz, se encaminha para seu emprego – sem ver o gari, claro – e recebe a notícia do chefe que está demitido. Uma máquina fará seu trabalho, ou um software ou sei lá. Isto no caso do jovem ter conseguido um emprego nos tempos atuais. No estado em que estamos sua reação é de espanto e incredulidade. Seu sistema nervoso quase entra em colapso. Afinal, você só sabe fazer aquele trabalho, se especializou no que fazia e foi substituído por uma máquina. Seu emprego não existe mais. Agora você será capaz de enxergar o gari e quase se sentir um. Garanto que se houver concurso para gari você não passa na prova!

man in blue and brown plaid dress shirt touching his hair
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Sai da empresa, senta nas escadas e se pergunta tanto sobre tudo que sua mente fica confusa e sem resposta. Se for jovem, poderá fazer um curso de aperfeiçoamento ou outra faculdade. Mas, quem vai bancar? Seus pais. Começa o cerco à liberdade! Se já for maduro e não tiver uma boa poupança guardada – difícil encontrar quem a tenha – e tiver família, acreditará que tudo passará. Ora! Não tem mais o trabalho, mais eu tenho experiência. Lamento dizer: isso não conta. Sua experiência já foi paga. O que querem é daqui para frente. De repente, sentado na escada perto jovem, os dois começam a ver garis.

Deixemos o jovem para lá (terá muitos anos de prisão ou, quem sabe, passará no concurso) e nos concentremos no homem maduro. Ele se levanta, vai para casa não acreditando em nada, pensa que serão só umas férias. Chega em casa recebe um abraço e beijo da esposa (ela percebe algo estranho. Aliás, sempre todas percebem), beijas as duas filhas e o casal vai para o quarto onde o Fulano de Tal conta o que aconteceu, mas que tudo será resolvido. Com certeza, pois tem amigos e são apenas férias merecidas. Pronto, entrou no autoengano e, pior, vai começar a ter devaneios excessivos. Já está doente!

Sua esposa fica estarrecida – acabou de contaminar a casa toda! Diz que eles não têm dinheiro guardado, pelo contrário, estão endividados até o pescoço nos bancos e como será que vão pagar as escolas das meninas, o aluguel, a prestação da casa, etc. Mas, acredita que com a experiência de trabalho do marido, conhecimento de pessoas, isso tudo logo passará. – Semana que vem você já está empregado de novo! Exclama a esposa.

Tomam banho juntos sorrindo para comemorar as “pequenas férias”. Jantam com as filhas, sem dizer nada, e vão para cama onde adormecem. De madrugada o Fulano de Tal tem um pesadelo. “Está nas ruas andando sem rumo, vê garis trabalhando, os inveja, mas não consegue ver a si mesmo.” Acorda gritando. Sua esposa acorda também, mas diz que vai dar tudo certo, que ele vai arranjar um emprego ainda melhor porque seu CV é excelente e começam a devanear com outra casa, novos amigos, melhor posição na hierarquia, etc. Ledo engano, digo, devaneio.

O Homem é Deus quando sonha e um miserável quando reflete” (Autor desconhecido)

A “pequena semana de férias” passa, se transforma em quatro anos. Agora eles estão morando de favor com os pais da esposa – sem contribuir com nada – que, também, estão em situação financeira difícil. E, ainda, faltam três anos para ele se aposentar. Os pais da esposa continuaram pagando a Previdência do marido. As filhas estão em escola pública. O jogo está sendo jogado.

Essa situação descrita mexe com a psique de qualquer um. O marido já nem procura mais emprego o que o torna um fantasma para si mesmo. Começa a perder o equilíbrio mental e emocional e fica se comparando consigo no passado e com os outros que ainda estão bem no presente. Já nem sabe quem é. Aliás, ninguém, nem os familiares sabem quem ele é mais. Antes o conheciam bem, como o Diretor da Empresa. Agora é tão invisível, quanto um gari.

A família o leva ao psiquiatra, mas não é ele quem paga a consulta. Bum! Milésimo soco de vergonha no estômago. Pagam psicanalistas e nada adianta. É a perda de si mesmo. Perde-se até capacidade de sonhar (o sonho sadio) e aumentam perigosamente os devaneios excessivos. Não há remédio e o tempo está passando. Fora do mercado há quatro anos, ainda acredita em sua experiência. Autoengano?

Conclusão

O sistema econômico atual está arruinado, mas ainda sustenta os Estados nos seus estertores. Para esse novo mundo que já nasceu – estamos sentindo as dores do parto – esta estrutura econômica não suporta mais o novo sistema de trabalho e a repartição de riquezas que vivemos.

Fim

“Não tenho a intenção de convencer a ninguém. O ato de convencimento é uma forma de colonização do Outro. É uma falta de respeito! (José Saramago, 1922 – 2010).

Obrigado Leitoras e Leitores!

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